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A vida de Hahnemann

A vida de Hahnemann

“A mais alta e única missão do médico é restabelecer a saúde nos doentes, que é o que se chama curar”.

Assim escreveu Christian Friedrich Samuel Hahnemann no 1º parágrafo de seu “Organon da Arte de Curar”; parágrafo que nos dá uma indicação segura sobre os fins últimos de um homem que dedicou toda sua vida à elaboração de uma ciência, que unida a uma profunda filosofia humanista, pudesse livrar a humanidade de toda dor, de todo sofrimento que ainda hoje a marca profundamente. E Hahnemann logrou seus objetivos quando estabeleceu os princípios da Homeopatia.

É muito fácil contemplarmos uma obra quando esta já está terminada (mesmo quando “término” signifique “início”); nos é muito cômodo estarmos com os olhos no passado mas com o resto do corpo e a alma presos ao presente, longe das tormentas que geraram as obras, que determinaram a história; assim parece-nos difícil sentir quanta luta há para que o ato da criação se nos apresente, quanto sofrimento daquele que cria para dar vida ao que rebenta e torná-lo aceito no mundo, para e pelo qual foi feito. Assim é a história de Hahnemann, uma história de criação e portanto de luta e abnegação. Mas deixemos o próprio Ulisses iniciar sua Odisséia:

“Eu nasci em 10 de abril de 1755 no Eleitorado da Saxônia, uma das regiões mais bonitas da Alemanha. Isso pode ter contribuído muito para minha adoração das belezas naturais, enquanto tornava-me adulto. Meu pai, Christian Gottfried Hahnemann, junto com minha mãe Johana Christiana Spiess, ensinaram-me como ler e escrever enquanto brincava. Meu pai morreu há quatro anos. Sem ter sido profundamente versado em ciência – ele era um pintor de uma fábrica de porcelana daquela cidade e o autor de um breve tratado de pinturas em aquarela – ele descobriu por si mesmo as mais sólidas concepções do que é ser bom e o que pode ser considerado digno de ser humano. Ele implantou essas idéias em mim. “Agir e viver sem presunção ou exibicionismo”, foi o seu preceito mais louvável. Impressionou-me mais por seus exemplos que por suas palavras. Freqüentemente ele estava presente, embora não observado, quando algo de bom estava para ser consumado.

Em suas ações ele diferenciava entre o nobre e o ignóbil a um alto grau de corretismo e delicada prática de sentimento, como era altamente louvável nele; nisto também ele foi meu professor. Suas idéias sobre os princípios primordiais da criação, a dignidade da humanidade e seu elevado destino, pareciam consistente em todo seu caminho, com seu modo de vida. Isto foi o fundamento de minha educação moral.”

Assim inicia sua autobiografia, onde se refere depois ao magistrado Müller, reitor da escola Principesca, dizendo de todo respeito por aquele que o iniciara, ainda jovem, em seus primeiros estudos das línguas clássicas e que iria exercer perceptível influência sobre seus estudos posteriores.

De inteligência invulgar, aos 14 anos já sabia tanto que substituía o professor de grego no ensino desta língua. Estuda até os 20 anos na escola Principesca de Sta. Afra, quando em 1775, inicia seus estudos médicos na Universidade de Leipzig. Era como tradutor e professor de línguas que provia seus sustentos; conhecia profundamente grego, latim, italiano, francês, inglês, alemão, hebraico, sírio, árabe, espanhol. Procurava sempre traduzir livros de assuntos que desejava aprender e assim cada vez mais ampliando seus conhecimentos. Em 1779 transfere-se para a Universidade de Erlangen, onde a 10 de agosto defende sua tese de doutoramento.

Era apaixonado pelos estudos de física, química, história natural e principalmente mineralogia. Hahnemann por seu interesse em mineralogia chegou a contactar com José Bonifácio de Andrade e Silva, nosso maior mineralogista da época.

Casa-se a 17 de novembro de 1782, com Joanna Leopoldina Henriqueta Kuchler, ela aos 17 anos e ele aos 27 anos; tiveram 11 filhos.

Em Dresde conheceu Lavoisier e exerceu as funções de médico legista, em substituição ao Dr. Wagner, seu amigo que se encontrava acamado. Em Química Judiciária escreveu “O Envenenamento pelo Arsênico, seu Tratamento e Pesquisas Jurídicas”, onde apresenta meios próprios para constatar o envenenamento pelo arsênico, promovendo grande desenvolvimento da química judiciária e a interdição da venda livre do arsênico como “pó para febre”. Redigiu uma série de prescrições que ainda hoje são respeitadas universalmente.

Em 1787, rico e com vastíssima clientela, começou a constatar a imprecisão dos meios da medicina de seu tempo e desde então não quis mais exercer a arte onde tudo era empírico. Vinha observando a ausência de base científica no tratamento prescrito. Sem lei orientadora, sem previsão, sem um caráter enfim que lhe evitasse as constantes vacilações. Juntando-se a isto, houve a doença de um seu amigo do qual foi médico assistente, quando apesar dos seus esforços e de medidas heróicas não foi possível salvá-lo.

Isto fez com que desistisse da medicina, e abandonasse todos os seus clientes, dedicando-se somente aos estudos e sustentando sua família com traduções, passando por grande dificuldade financeira.

Em 1790 traduzindo a Matéria Médica de Cullen, sobre a ação da China como antimalárico, encontrou explicações contraditórias e resolveu experimentar em si mesmo essa substância. Apresentando os sintomas da malária, concluiu pela lei dos semelhantes de Hipócrates, dando início a experimentação de várias substâncias, separadamente, em si mesmo e em diversas pessoas. Este é o marco inicial da sistematização da homeopatia.

Em 1796 publica “Ensaio sobre um novo princípio para descobrir as virtudes curativas das substâncias medicinais seguidos de alguns comentários sobre os princípios admitidos até nossos dias”; primeira publicação sobre a nova doutrina. Muito perseguido por farmacêuticos e médicos viu-se muitas vezes forçado a mudar de uma cidade para outra.

Em 1810 publica o “Organon da Arte de Curar”, em sua primeira edição, uma de suas mais importantes obras dentro da doutrina Homeopática, cuja sexta edição e última, foi póstuma, em 1923. Em 1811 inicia a publicação de sua “Matéria Médica Pura”, que se completa em 1821, em seis volumes. Em 1828 publica “Doenças Crônicas, de sua natureza e de seu tratamento homeopático”, obra de suma importância dentro da doutrina homeopática.

Em 10 de agosto de 1829, Hahnemann comemora o cinqüentenário de doutoramento e realiza-se em Ko then o 1º congresso homeopático, presidido pelo mestre. A 31 de março de 1830, falece sua esposa. Em 1832 abre-se o primeiro hospital homeopático, que sendo mal dirigido fecha em 1842.

Aos 18 de janeiro de 1835 casa-se em segundas núpcias com Marie Melanie D’Ervilly Gohier, de nacionalidade francesa, ele aos 80 anos de idade e ela aos 37 anos. Muda-se então para Paris. Os médicos franceses, então pedem ao ministro da instrução pública, Guizot, que o impeça de praticar a medicina, ao que o ministro responde: “Hahnemann é um sábio de grande mérito. A ciência deve ser para todos. Se a homeopatia é uma quimera ou um sistema sem valor, cairá por si própria. Se ela é ao contrário, um progresso, se expandirá apesar de nossas medidas proibitivas, e a Academia deve lembrar-se antes de tudo que tem a missão de fazer progredir a ciência e de encorajar as descobertas”. O mestre obteve autorização para trabalhar em 12 de outubro de 1835.

Morre em Paris, a 2 de julho de 1843 aos 88 anos de idade, ainda em plena atividade intelectual, como comprova sua correspondência da época.

Referências:

  • Samuel Hahnemann, Sua Vida e Obra (Richard Haehl, M.D.)- Editorial Homeopática Brasileira, vol I e II;
  • A personalidade de Samuel Hahnemann – Sua Vida e Obra. Trabalho apresentado e premiado com o primeiro lugar, ao XVII Congresso Brasileiro de Homeopatia, Salvador, Bahia, 4 a 9 de setembro de 1984. Realizado pelos membros do Grupo de Estudos Homeopáticos de São Paulo “Benoit Mure”.
  • Doutrina Médica Homeopática – Grupo de Estudos Homeopáticos de São Paulo “Benoit Mure”, 1986.

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