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Dra. Nise da Silveira

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Gostaria de fazer uma breve homenagem a essa senhora, que através da sua história de vida dedicada ao cuidado com os bichos e os bichos-gente (como costumava se referir), tanto me influenciou e ensinou na lida com as pessoas em sofrimento. Desde os primeiros contatos com seus trabalhos, me identifiquei profundamente com seus valores, pois compartilho inteiramente as suas idéias.

Trata-se de uma mulher alagoana, aquariana, filha única de pais pernambucanos, (mãe pianista e pai professor de matemática e admirador dos livros). Por parte de mãe era destinada ao piano, e por parte de pai, com quem se identificava mais, era predestinada aos livros. Mas foi numa casa de gente humilde onde se refugiou por questões políticas (era de esquerda), que descobriu sua vocação, quando uma moça de dentro dessa casa, espontaneamente comentou: “você tem um jeito de médica nas mãos”. A partir daí descobriu que existia alguma coisa de médica dentro de si, o desejo de que ninguém sofresse e de poder apagar o sofrimento com as mãos. Apesar de adorar a natureza, a música, as artes em geral e não gostar de sangue nem de hospitais, aproximadamente aos 15 anos de idade entrou para a faculdade de medicina, na Bahia, sendo a única mulher numa turma de 186 alunos do sexo masculino. Um dos professores a fim de testar sua vocação, fez com que permanecesse durante toda a aula em pé, segurando uma cobra viva nas mãos. E ela conseguiu!

Durante sua residência médica em psiquiatria, no RJ, por estar lendo um livro de Karl Marx, foi denunciada por uma enfermeira e presa, na época do Estado Novo, de Getúlio. Dividiu a cela com Olga Benário, Graciliano Ramos, e um assassino que lhe cedeu a coberta por considerá-la muito magrinha. Referia-se a esse período como “universidade da prisão”, porque aproveitou para estudar bastante.

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Com esse espírito determinado e apaixonado revolucionou a psiquiatria, recebendo o título de psiquiatra rebelde por se recusar a aplicar eletro choque nos doentes psiquiátricos, além de considerar os psicofármacos camisas de força químicas. Como represália, foi transferida junto com alguns doentes mentais crônicos, para uma ala desativada do Hospital Psiquiátrico Pedro II, no bairro do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Lá utilizou argila, lápis, papel, tintas e pincéis, na tentativa de comunicação com as pessoas doentes (esquizofrênicos), que não se expressavam pela fala.

Assim nasceu o precursor da terapia ocupacional, o que denominou “emoção de lidar”, expressão utilizada por um esquizofrênico nas atividades manuais realizadas na sua ala. Procurava deixá-los à vontade para expressarem os seus conteúdos internos sem interferência ou direcionamento.

Detestava ouvir o termo “paciente”, preferia “cliente”. Ensinava que os enfermos tinham identidade e mereciam ser chamados pelos nomes, acompanhados dos respectivos pronomes de tratamento.

Após observar um esquizofrênico que não falava há anos, dizer bom dia para um cão que havia pulado no seu leito de manhã e lambido a sua face, introduziu cães e gatos no convívio com os doentes, chamando-os de co-terapeutas.

Conforme os internos foram aumentando as suas produções, observou um fenômeno curioso. Apesar de pintarem em lugares separados, todos os desenhos apresentavam formas esféricas convergindo para um ponto central, quando fora dos surtos, e divergindo desse ponto durante os surtos.

Sabendo do trabalho de Jung sobre a psique, enviou-lhe alguns desenhos, solicitando orientação. Como resposta, descobriu tratar-se de mandalas, a forma da dinâmica da psique. Esses contatos renderam muitos frutos, pois ela realizou uma exposição do material produzido nos ateliers de modelagem e pintura no Hospital Pedro II, inaugurada por Jung, além de ganhar uma bolsa de estudos do grande mestre, na Suíça. A partir de então, já com cinquenta e poucos anos, descobre a importância dos mitos como linguagem da psique, os símbolos, e passa a estudar esse idioma.

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Em 1952 fundou o Museu de Imagens do Inconsciente situado no Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, onde reuniu as pinturas dos internos, constituindo um valioso acervo para o estudo em série da psique. Durante muitos anos lutou pelo tombamento do museu, devido às ameaças de venderem as pinturas. Felizmente, pouco antes de seu falecimento em 1999, conseguiu proteger esse patrimônio com o tombamento.

Em 1955 fundou o Grupo de estudos C. G. Jung.

Em 1956 fundou a casa das Palmeiras, um sobrado localizado na Rua Sorocaba, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, com o intuito de acolher os doentes mentais durante o dia, principalmente os provenientes da internação hospitalar prolongada, a fim de amenizar o retorno ao convívio sócio-familiar. Foi a precursora dos Hospitais Dia e dos atuais CAPS (Centro de Atendimento Psico-Social) e funciona até hoje. Os egressos das internações frequentavam a Casa das Palmeiras de acordo com a sua vontade. Lá participavam de diversas oficinas: culinária, artesanato, pintura, desenho, modelagem, costura, salão de beleza, música, dança, teatro… durante o tempo que quisessem, e sem interferências, por acreditar que o vínculo terapêutico era um processo afetivo, e se formava naturalmente como em qualquer outro relacionamento.

Durante toda a sua vida valorizou os bichos como irmãos, lutando para acabar com a experimentação nos animais até o último ano da sua vida, em 1999, quando circulava um abaixo assinado pelas ruas do Rio de janeiro. Considerava os cães seres muito evoluídos devido à sua capacidade ilimitada de perdoar, sabiam amar incondicionalmente. Os gatos eram vistos como seres especiais com os quais se identificava profundamente, comparava o seu afeto ao dos esquizofrênicos, pois aparentemente distantes e indiferentes estavam sempre por perto percebendo profundamente o outro. Aos 92 anos de idade escreveu seu último livro em homenagem aos gatos.

Ao longo de vários anos, as pesquisas da Dra. Nise deram origem as exposições, filmes, documentários, audiovisuais, simpósios, publicações, conferências e cursos, tanto sobre terapêutica ocupacional, quanto sobre a importância das imagens do inconsciente, na compreensão do mundo interno do esquizofrênico.

Enfim, a Dra. Nise da Silveira foi uma mulher pioneira no mundo científico, valorizando as atividades expressivas, praticadas livremente, apelando para a capacidade criadora que existe dentro de cada indivíduo, dando forma ao conturbado mundo interior, ao mesmo tempo em que lançava pontes ao mundo exterior, integrando aspectos rejeitados de suas personalidades. Realizou sua vida profissional de forma feminina, documentando e denunciando nos seus livros as consequências das diversas práticas terapêuticas na psiquiatria.

PUBLICAÇÕES:

- 1966: Terapêutica Ocupacional- Teoria e prática. Ed. Casa das Palmeiras.

-1968: Jung – Vida e Obra. Ed. Atual Paz e Terra.

-1981: Imagens do Inconsciente. Ed. Alhambra.

-1983/85: Textos para os três filmes “Imagens do Inconsciente”, dirigidos por Leon Hirszman:

- Em Busca do Espaço Quotidiano

- No Reino das Mães

- A Barca do Sol

-1986: A Emoção de Lidar. Ed. Alhambra.

-1989: A Farra do Boi – O Sacrifício do Touro. Numen Editora.

-1989: Artaud – A Nostalgia do Mais, com Marco Lucchesi, Milton Freire e Rubens Corrêa. Numen Editora.

-1992: O Mundo das imagens. Ed. Ática.

-1980 – 1994: Textos para 15 documentários audiovisuais realizados no Museu com Luiz Carlos Mello.

-1995: Cartas a Espinoza. Ed. Francisco Alves.

-1996: Revistas do Grupo de Estudo C. G. Jung – Quartênio – Homenagem Especial à Dra. Marie-Luise Von Franz. Gráfica da Imprensa da Cidade.

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