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Hahnemann e seu tempo

Hahnemann e seu tempo

“A fim de imaginarmos, de forma aproximadamente precisa, determinada pessoa, temos antes de mais nada de estudar a sua época, fase em que podemos até mesmo ignorá-lo, para depois, a ela retornando, encontrar o maior agrado na sua contemplação”. Isto diz um dos mais eminentes contemporâneos de Hahnemann, Johann Wolfgang Von Goethe em carta dirigida a um amigo em 1828.

Seguiremos assim o sábio conselho do grande poeta alemão, debruçando-nos inicialmente, sobre a História durante 1755 a 1843, acalentados pela esperança de obtermos, por fim, um perfil mais perfeito do mestre de Meissen.

Em 1755 Meissen era uma pequena cidade da Saxônia, próxima de Dresden, muito importante por ter, no início do século, acolhido o alquimista Boettger, descobridor da porcelana, que exerceria decisiva influência não só econômica e social para a Saxônia, como diretamente ao próprio Hahnemann, uma vez que seu pai era um pintor de peças feitas daquele material.

Por esta época, Meissen pertencia ao império da Prússia de Frederico II, O Grande (1740 – 1786). Discípulo fervoroso das doutrinas reformadoras da nova filosofia racionalista, tornar-se-ia a principal figura entre os déspotas esclarecidos do séc. XVIII. Em 1755, Voltaire (1694 – 1778), depois de longo período protegido por Frederico II, ora exilado em Genebra, inicia seu poema sobre o Terremoto de Lisboa, que ocorrera neste ano. François Marie Arouet (Voltaire), crítico astucioso, absolutamente lúcido e racionalista detestando toda especulação abstrata, foi responsável pela divulgação, no continente, da filosofia de John Locke (1642 – 1727), criadores do Iluminismo, que tanta influência exerceria sobre a personalidade universalista de Hahnemann. Voltaire era considerado a maior inteligência que o séc. XVIII produzira.

Quando o pai da Homeopatia contava com apenas um ano de idade, nascia em Salsburgo, o “divino” Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791), levando o classicismo nas artes ao seu esplendor. Neste mesmo ano era deflagrada a Guerra dos Sete Anos que alcançou proporções virtualmente consideradas como um conflito mundial, envolvendo a França, Espanha, Áustria e Rússia que se arregimentaram contra a Inglaterra e a Prússia.

A trajetória histórica do mundo, depois da Guerra dos Sete Anos, até meados do séc.XIX, rege-se por três linhas mestras: a ruptura político-ideológica que a Revolução Francesa representa e a sua posterior evolução com a ascensão, hegemonia e queda do império napoleônico, isto é, em 1799 Napoleão Bonaparte trai os ideais revolucionários com o golpe dos 18 Brumários, e em 1804 faz-se imperador; o avanço das colônias americanas no sentido da independência relativamente às casas reais européias e o início da revolução industrial.

Os ideais iluministas vão culminar em dois acontecimentos fundamentais para o desenvolvimento político no mundo, a independência dos Estados Unidos da América do Norte em 1776 e a Queda da Bastilha em 1789. Tantas convulsões sociais, fizeram com que o Iluminismo, criado no séc. XVII, tivesse seu auge no final do séc. XVIII, quando o Ser humano encontrava-se oprimido pelo despotismo do Estado e pela inflexibilidade da igreja. Bertrand Russel já dizia que nos momentos de paz os filósofos criam filosofias audaciosas e nos momentos de guerra, filosofias de esperança. E essa foi a tônica dessa época de profunda crise, quando os amantes da sabedoria insurgiram-se contra o sistema político, social e clerical, desenvolvendo o humanismo até suas últimas conseqüências, dando ao Ser humano o lugar que lhe é por direito no universo, o centro (o Humanismo).

É a época dos enciclopedistas, Diderot D’Alembert, e de Immanuel Kant (1724 – 1804), nascido em Konigsberg, cidade próxima de Meissen, cuja obra principal é “A Crítica da Razão Pura”. Em 1755, escreveria a primeira cosmogonia baseada nas teorias newtonianas, descrevendo o surgimento do sistema solar e da via láctea de uma grande nebulosa primordial.

Em 1784, Kant escreveria em artigo intitulado “O Que É O Iluminismo?”: “Iluminismo é a emergência do ser humano de sua imaturidade auto-incursa…” a divisa do iluminismo deve ser: Sapere Aude! (Ouse para ser sábio!). Tenha a coragem de usar seu próprio entendimento. Immanuel Kant foi um dos mais metódicos e nobres homens de sua época. E Hahnemann inicia sempre suas obras, após a 1º edição do Organon, por essa divisa!

Se na filosofia buscava-se o ser humano como centro de todas as coisas, as artes igualmente foram em direção ao anthropos perdido no barroco e o classicismo. O ser humano, suas paixões, sua individualidade e interioridade eram buscadas pelo movimento romântico que na literatura irrompera com as obras de F. Schiller (1759 – 1805) e o grande J. W. Von Goethe (1749 – 1832), movimento que seria conhecido como “Sturm Und Drumg” (Tempestade e Ímpeto). Na pintura houve expoentes como E. Delacroix (1798 -1863), Turner (1775 – 1859) e F. Goya (1746 – 1828). Na música, o romantismo foi iniciado por Ludwig van Beethoven (1770 – 1827), que em 1824, quando a primeira tradução francesa da 2º edição alemã do Organon era divulgada, estreiava simultaneamente a Missa Solene e a 9º Sinfonia.

Quando, em 1810, Hahnemann dava a conhecer ao mundo científico (que permaneceu e permanece de olhos fechados para ele), o Organon da Arte de Curar, A. Comte (1789 – 1857), Littré (1801 – 1881), H. Balzac (1799 – 1850), Victor Hugo (1802 -1885), ainda eram crianças, e neste mesmo ano nasciam R. Schumann (1810 -1856) e F. Chopin (1810 – 1849). Um ano antes, em 1809, Lamarck publicava sua teoria sobre os caracteres adquiridos e nascia Charles Darwin.

A quantidade de seres humanos verdadeiramente geniais que contemporizaram Hahnemann é absolutamente incrível, dando-nos um exemplo da profunda fecundidade da época pela qual transcorreu a vida do médico de Meissen.

Enquanto o Iluminismo, que é como podemos resumir numa palavra toda arte e filosofia da época, contribuía para dissipar as névoas densas da superstição e das limitações ilógicas que ainda envolviam o mundo ocidental, ajudando a exterminar com as grandes tiranias políticas e a enfraquecer o poder dos padres sem critério, acabando definitivamente com a influência malévola da Santa Inquisição, um ser humano, solitário a maior parte de sua vida, trabalhava por livrar a humanidade do flagelo de doenças inomináveis.

Foi nesta época extremamente conturbada e de efervescente criatividade, que viveu Samuel Hahnemann, a que a história ainda não prestou justa homenagem, como um verdadeiro iluminista e profundo humanista que foi. Talvez o último dos grandes iluministas, e certamente o mais próximo do ser humano.

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