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Paracelsus

No século XVI surge na Europa um movimento humanista denominado Renascimento, uma vez que sua reação a Idade Média era no sentido de fazer renascer a época clássica da humanidade, a Grécia do século de Péricles. Consumava-se a queda vertiginosa de Aristóteles pelas mãos de Copérnico e pelo advento das grandes navegações, não podendo esse movimento deixar de ser visto mesmo como uma Contra-Reforma.

Leonardo, Erasmo e Lutero foram contemporâneos de Paracelso. Leonardo representando a máxima expressão da arte analisada, científica e filosoficamente; Erasmo expressando o maior sentimento filosófico e satírico que os conhecimentos científicos e artísticos da época conseguiram realizar; e Lutero, o mais alto e transcendental expoente da paixão religiosa, iconoclasta e construtiva por sua vez, cheio de misticismo e uma implacável perseguição à hierarquia temporal.

Philippus Theophratus Bombastus de Hohenheim, Paracelsus, nascido em novembro de 1493, na Suíça, filho de pai médico, acompanhando-o por aqueles caminhos da montanha, pelos povoados, logo aprendeu a gostar das plantas e das ervas silvestres, iniciando-se no conhecimento e no amor pela natureza.

Um dia chegou à insólita decisão: revolucionaria e transformaria a medicina, levaria a terapêutica por caminhos mais naturais e declararia guerra sem tréguas ao trio intocável que seus contemporâneos veneravam: Celso, Galeno e Avicena.

Assim, Philippus Theophrastus, que como prova de sua oposição a Celso havia decidido chamar-se Paracelso, saiu de seu lugar e começou uma surpreendente e contínua peregrinação. Frequentou as universidades da Alemanha, da França e da Itália, assistindo às aulas dos homens mais destacados da época. A magia mística, o ocultismo e a escolástica reinavam nas universidades. Viajou por inúmeros países e cidades da Europa (Tirol, Hungria, Polônia, Suíça, França, Espanha, Portugal, Itália, Países Baixos, Dinamarca, Suécia, Boêmia…), Por onde passava ensinava sempre, e em todas as partes, com os alquimistas, com os quiromantes, viveu em grande simplicidade, falando uma linguagem rústica e atuando profissionalmente sem nenhuma arrogância.

A ânsia de conhecer de Paracelso, sua obsessão em combater a mentira, o empirismo, o charlatanismo, e a linguagem rígida da classe, aproximando-se dos doentes e dos pobres antes que eles batessem à sua porta, como era costume dos seus empoados colegas, o definem como um homem aferrado à razão justa das coisas, a ponto de ter sido chamado “o médico dos pobres”. Por sua vez não esperava gratidão dos seus contemporâneos. E se voltou para o povo, ensinando-lhe a medicina em sua própria linguagem vulgar para grande escândalo “dos contempladores de urina e dos acadêmicos”, como costumava dizer. O apelido de “Lutero da medicina” que acabou ganhando, tem um fundo de verdade e o define com todo o direito e honra como o promotor da grande revolução científica do século XVI.

Seu extraordinário grau de observação o levou a substituir os velhos princípios da terapêutica em uso, por uma nova arte fundada num conhecimento mais exato do homem, considerado como uma parte do universo e de cujas leis não poderia escapar. Assim criou seu princípio do homem como microcosmo, dentro da grande ordem superior, o macrocosmo.

As suas observações nesta época, sobre as enfermidades dos mineiros e sobre as virtudes de alguns minerais foram notáveis. As do mercúrio, por exemplo, para a cura de úlceras sifilíticas, estão entre as aquisições definitivas. E desta maneira muitas outras. Apesar disto a vida de Paracelso transcorria alternadamente entre a riqueza espetacular e a pobreza franciscana, sem que isso modificasse seu comportamento. Como consequência lógica, despertava ciúmes e afrontava a vaidade dos colegas, sofrendo perseguições, sendo acusado de charlatanismo e encarcerado em Nordlingen (Alemanha). Mas a liberdade não podia escapar daquele que tanto a amava, e novamente Paracelso iniciava nova peregrinação. Às vezes peregrinava sozinho e outras acompanhado e rodeado de exaltados discípulos.

 

Sua fama e renome comoveram de tal maneira o público, que finalmente foi chamado para ocupar uma cadeira na Basiléia (1527), quando tinha somente 34 anos de idade. Posteriormente se dedicou ao ensino público em Colmar (1528), Nuremberg (1529), Saint-Gall (1531), Pfeffer (1535), Augsburgo (1536) e Villach (1538). A estes dez anos de docência ininterrupta seguem-se outros dois que, retirado em Mindelheim, ocupou-se em recopiar, ordenar e rever seus escritos e conferências, dispersas aqui e ali, entre as que ficaram para a posteridade nas poucas notas de seus discípulos.

Paracelso, cujo perfil psicológico é essencialmente o de um apaixonado, grande rebelde e grande curioso, evidencia na sua impressionante figura de gênio a junção do espírito positivo e do misticismo. Não se limitava a observar e teorizar, experimentava; e para isso utilizava-se inclusive de amigos vizinhos. “Sua fornalha estava sempre com fogo vivo, onde ferviam álcalis, óleos arsenicais, seu famoso opodeoltoch, e sabe Deus o que mais”, relata Oporinus, seu discípulo mais próximo e mais tarde o seu pior inimigo.

Químico competente, Paracelso não se limitava em apreciar os efeitos dos medicamentos; perguntava-se o por que de sua atividade. A tais princípios denominava arcanos, substâncias ocultas escondidas, que urgiam procurar, isolar, para se chegar aos medicamentos puros e realmente eficazes. Fundava-se a quimiatria.

“Não procure fazer ouro, produza remédios”, dizia aos médicos. “Havia em Paracelso o germe da síntese química correndo paralelamente à análise em busca dos princípios ativos, comenta Bernardes de Oliveira. Esse é o grande papel representado por esse médico turbulento, agitador, charlatanesco, possuído ainda pelas artes mágicas, embora já atormentado pelas vagas noções de onde surgiria, mais tarde, a síntese de novos e realmente miraculosos medicamentos.”

Acreditava que as moléstias vinham pela vontade de Deus, então deveria haver igualmente remédios adequados a cada uma delas: “O problema é que venenos e medicamentos são quase sempre integrados num mesmo corpo químico, sendo apenas a dosagem o que iria determinar um ou outro efeito dessas duas propriedades misteriosamente unidas”, dizia Paracelso.

Como diz eloquentemente Bernardes de Oliveira: “seu espetacular gesto ao destruir publicamente os livros de Galeno e de Avicena equipara-se ao de Lutero, quando ao queimar a bula papal rebelava-se contra o princípio da autoridade; ambos iam refugiar-se no tribunal das próprias consciências e desprezar a regra da cega submissão”.

O fundamental de sua obra foi sua postura filosófica, moral, sua procura dos arcanos, o desenvolvimento dos remédios, e sua doutrina das signturae ou sinais da natureza. Buscava com essa doutrina compreender, aprender, através dos signos que a natureza manifesta, a cura para as moléstias; assim dizia: “é preferível chamar a lepra de doença do ouro, já que com o nome indicamos, em si, o remédio”.

Pelos sinais da natureza, características sensíveis das plantas e das substâncias químicas, Paracelso indicava seus medicamentos, procurando encontrar semelhanças dessas características para com aqueles dos pacientes. É a lei dos semelhantes em sua interpretação.

O princípio vital foi chamado por ele de “elemento misterioso, ignoto ou arcano”, cuja ação, espontaneamente favorável, devia ser favorecida com a manutenção do doente em uma higiênica expectativa, desenterrando o velho aforismo de primum non nocere, com calmantes (como o láudano), dietas e cantáridas, e a prescrição de vomitórios, sangrias e demais medicações violentas tão estimadas pelos Galenistas. E não há dúvida de que obtinha assim curas retumbantes.

Hoje, por cima das calúnias e impugnações, está fora de dúvida que Paracelso possuiu uma grande cultura, um grande amor pelo estudo, um rigoroso espírito crítico e costumes baseados na sobriedade e na castidade absoluta.

Grande crítico de sua época, que é bastante atual, afirmava: “Há alguns que aprendem tanto, que tudo o que estudaram os fazem perder o bom senso, e há outros que cuidam muito mais do seu lucro do que da saúde de seus pacientes. O médico deve ser um servidor da natureza e não seu inimigo; deve saber guiá-los e dirigi-los em sua luta pela vida, e não colocar, por sua influência irracional, novos obstáculos no caminho da recuperação.”

Durante o inverno de 1540 em Mindelheim, Paracelso foi atacado por uma doença rara que o consumiu pouco a pouco. Acreditando que uma mudança de ares seria benéfica, decidiu transferir-se para sua querida cidade de Salzburgo, tão formosa e de clima tão suave. Nela, desperto para seu agudo e perene misticismo, escreveu comentários sobre a Bíblia e a vida espiritual, cujos fragmentos foram publicados por Toxites em 1570. Mas a doença progredia e Paracelso teve a sensação de que o fim estava próximo.

Parece certo que esteve internado no hospital de Santo Estevão e ali sentiu um dia a morte chegar com rara corporeidade. Sua reação foi caracterizada pela suavidade dos eleitos. Depois alugou um grande cômodo na pousada do Cavalo Branco, em Kaygasse, que poderia usar como quarto e escritório. E para ali se mudou à espera da morte que, segundo dizia, “seria o fim de sua laboriosa jornada e verdadeira colheita de Deus”.

No último dia daquele verão ditou seu testamento, preparou seu funeral, repartiu seus bens, escolheu os salmos I, VII, e XXX para serem cantados no momento da grande viagem de sua alma, e desejou que seu corpo fosse enterrado na Igreja de Santo Estevão. Três dias depois, em 24 de setembro de 1541, morreu, aos 48 anos de idade. Diante de seus restos desfilou toda a cidade, e o príncipe eleito arcebispo ordenou que os funerais fossem com todas as honras, de acordo com o homem digno que acabava de desaparecer.

No seu epitáfio ainda se lê o cândido elogio, muito breve e simples para a vida de um homem como ele: “Aqui jaz Felipe Teofrasto de Honhenheim. Famoso doutor em medicina, que curou toda espécie de feridas, a lepra, a gota, a hidropisia e outras enfermidades do corpo com ciência maravilhosa. Morreu em 24 de setembro no ano da graça de 1541”.

Referências:

  • Doutrina Médica Homeopática – Grupo de Estudos Homeopáticos de São Paulo ”Benoit Mure”, 1986;
  • Paracelso – A Chave da Alquimia (Biblioteca Planeta, 1973), Vol. I e II.

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