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Vitalismo

História do Vitalismo

 

É a filosofia que sustenta a homeopatia. Define-se como a condição que rege e harmoniza o ser vivo, fenômeno imaterial que inexiste na substância morta e que caracteriza a vida. Que diferencia os vivos dos mortos.

 

Historicamente o vitalismo é tão antigo quanto a idéia de Deus e da alma, ou seja, tão antigo quanto o próprio registro do pensamento humano. Entre os chineses, por exemplo, encontramos o conceito de ch´i, desempenhando um papel fundamental em quase todas as escolas chinesas de filosofia natural, significando, literalmente “gás” ou “éter” e denota o sopro vital ou a energia que anima o cosmo. No organismo humano há os caminhos do ch´i, que é toda a base da medicina tradicional chinesa, havendo harmonia ou saúde quando o fluxo do ch´i estiver livre. Na Grécia antiga, entre os pré-socráticos, particularmente os da escola jônica, há o predomínio da visão vitalista na concepção da natureza (physis). Para os jônicos, não há a matéria inanimada, toda a physis está impregnada de vida e espiritualidade, em tudo se manifestava o princípio dinâmico vital…

Por exemplo, Tales de Mileto declarava que todas as coisas estavam cheias de deuses e Anaximandro, também de Mileto, encarava o universo como uma espécie de organismo mantido pelo pneuma, a respiração cósmica, à semelhança do corpo humano mantido pelo ar; tudo o provinha do apeíron, o indefinido. Em Anaximenes de Mileto lê-se: “Como a nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantêm unidos, assim também todo o cosmo, sopro e ar, o mantém”. Seu contemporâneo Anaxágoras de Clazômena desenvolve a idéia do nous (espírito), que presente nos seres vivos, lhe dá essa condição de vida. É também entre os pré-socráticos que surge o materialismo, postura filosófica inspiradora do mecanicismo, e seu fundador é Demócrito de Abdera que nos deixou a idéia de átomo (indivisível). Já Heráclito de Éfeso introduz de uma vez por todas o devir, o eterno transformar-se das coisas e, como o taoísmo, a harmonia viria do equilíbrio entre as forças opostas, forjada pelo fogo, do qual tudo provém. Em Heráclito tudo é dinamismo.

Todo esse conjunto de idéias espiritualistas, vitalistas, alcança sua síntese em Hipócrates de Cós. Para ele, o que caracterizava a vida era um duplo dinamismo, isto é, a convergência do pneuma, que penetrava no corpo pela boca, nariz e poros da pele tendo como função alimentar, impulsionar, refrigerar e vivificar o organismo; e do calor inato que, segundo Hipócrates, situava-se no ventrículo esquerdo do coração, tendo por função primordial manter os quatro humores em atividade, expulsando-os ou reequilibrando-os, quando perturbados em suas relativas posições; ou seja era a força vital, uma força curativa natural (vis medicatrix naturae) sempre pronta a regular o organismo humano mantendo-o em harmonia. Esta força reguladora,para Hipócrates, era o primeiro médico do ser humano. Para ele a natureza humana é uma unidade dinâmica na extensão e na duração; “tudo concorre, tudo conspira, tudo simpatiza”, dizia.

Tanto os pré-socráticos jônicos como Hipócrates exercem profunda e decisiva influência sobre Sócrates e consequentemente, sobre Platão. Este último, no diálogo Fédon, afirma haver uma alma imortal aprisionada no corpo e que de alguma forma lhe dá vida. O platonismo irá renascer em Plotino, que retoma Sócrates para o Cristianismo. Plotino afirma que: “É pelo Uno que todos os seres têm existência”. “Há saúde quando há unidade de coordenação no corpo”. “Se o ser humano sempre fosse uno, jamais ficaria doente”. “A alma dá unidade ao corpo, e é una por algum outro ser.”

O materialismo reaparecerá com Epicuro de Ganus, retomando o pensamento de Demócrito de Abdera. Ele ganhará sua forma mecanicista, superando o vitalismo em influência, com o movimento renascentista, quando Descartes retira Deus do indivíduo, dando a este uma essência mecanicista e naturalista. Toma força a ciência; nasce o pensamento de Newton e desde então, até nossos dias, praticamente só existe a visão mecanicista, dos enciclopedistas, como Diderot, ao positivismo e racionalismo cristão de nossos dias.

Em meio a todo esse materialismo, encontramos nos séc. XVII e XVIII a figura extraordinária de George Stahl, que exerceu enorme influência no meio científico e filosófico, propagando seu animismo, isto é, sua idéia de que todos os movimentos vitais eram atribuíveis a alma; movimentos sadios ou mórbidos provinham da atuação da alma sobre o corpo, sem mecanismos intermediários. Combateu violentamente os iatroquímicos e mecanicistas e desenvolveu uma terapêutica naturalista que tinha por base o princípio hipocrático de Natureza Medicatriz. “O que conserva o corpo, afirma Stahl, o movimento, é algo totalmente estranho à essência e ao caráter do corpo, mas gêmeo da essência da alma, isto é, incorporal em si e capaz de agir sobre o corpo.”

De Stahl florescia a escola de Montpellier, no séc. XVII na França. Ali se destaca Barthez que faz a conversão apropriada de animismo em vitalismo: do primeiro retira a alma acrescentando ao segundo o Princípio Vital. Segundo Barthez, os atos atribuídos a estas forças diversas, que atuam no organismo vivo, não são nem isoladas nem independentes nem encadeados uns aos outros de uma maneira necessária; mas são regras, dirigidas, dispostas para um mesmo fim e seguindo as necessidades que nascem e mudam a todo momento. Aqui há unidade, individualidade do sistema fisiológico. Barthez chamou de princípio vital “a causa que produz todos os fenômenos da vida no corpo do ser humano.”

Parafraseando Hipócrates, tudo concorreu, tudo conspirou, tudo simpatizou para que Hahnemann formalizasse sobre bases absolutamente vitalistas, e a bem da precisão, holistas, a verdadeira e mais perfeita arte de curar. Para isso, reportemo-nos aos parágrafos do Organon de números 9 a 16, onde ele coloca de maneira clara o seu vitalismo, derivado basicamente de Hipócrates e de Barthez da escola de Montpellier.

O caráter holístico (de totalidade) do vitalismo de Hahnemann, ele o expressou de maneira enfática no parágrafo 7 do Organon: “… A totalidade de sintomas, esse quadro da essência da doença refletida para fora, isto é, a afecção da força vital, deve ser o principal e único meio pelo qual a enfermidade dá a conhecer o medicamento de que necessita – o único meio que determina a escolha do medicamento mais apropriado – em suma, a totalidade dos sintomas…”

É no parágrafo 9 que Hahnemann melhor define e resume sua idéia sobre o vitalismo e sua relação com o corpo e com o espírito dotado de razão que ele concebe ser o ente que se utiliza do organismo sadio para realizar seus mais altos fins. Primeiramente, afirma que “No estado de saúde, a força vital imaterial (autocracia) que dinamicamente anima o corpo material (organismo)…” é absolutamente soberana cumprindo seu papel fundamental para o organismo que é mantê-lo regulado “… em admirável atividade harmônica…”; conforme ainda algumas considerações contidas no prefácio da quarta edição do Organon, Hahnemann deixa claro que a força vital nada mais é do que a “natureza individual do ser humano orgânico”, sua vis medicatrix naturae,que está sujeita às leis orgânicas, isto é, às leis do terreno (constituição) para se manifestar. “Acima de tudo, conforme o parágrafo 10, a força vital ou o princípio vital, é o animador do organismo material no estado são e no estado mórbido…”

No parágrafo 11 Hahnemann define doença como sendo a alteração dinâmica da energia vital por um agente morbígeno, resultando em atividades irregulares do organismo, reconhecidas pela totalidade sintomática. A nota a este parágrafo é uma das mais belas páginas do Organon. É uma profunda abstração sobre os fenômenos físicos da natureza, de rara precisão. Imagina que se é por uma influência dinâmica que o ser humano adoece, será também por um processo semelhante que ele deverá se curar. A analogia que faz com os fenômenos do magnetismo é absolutamente irrepreensível. Inclusive, quando fala de física, já utiliza conceitos novos, que emergirão algum tempo depois de sua morte, pelos trabalhos de Faraday e Maxwell. Faz considerações sobre a idéia de “campo de força,” abandonando antes mesmo que os físicos, o conceito de força como ação à distância, mecânica, concebendo-a já como “interação” (como na teoria eletromagnética e na teoria quântica dos campos). Naturalmente ele não utiliza a expressão mas a idéia já está implícita. Seus exemplos de infecção são exemplos de campos de força interagindo e deformando as condições do meio (espaço- tempo), seja em moléstias, seja na ação do medicamento sobre o princípio vital imaterial.

Nota do parágrafo 11 (Organon da Arte de Curar – Samuel Hahnemann):

“Que é influência dinâmica – força dinâmica? Verificamos que a nossa Terra, por uma força secreta invisível, conduz a Lua em torno de si, dentro de 28 dias e algumas horas, e que a Lua levanta em marés, alternadamente, em horas fixas, os nossos mares do norte e os baixa novamente em horas fixas, ao refluxo (deduzindo-se alguma diferença na Lua cheia e na nova).

Vemos isso e ficamos admirados, pois nossos sentidos não percebem como tal acontece. Aparentemente, isso não acontece por meios materiais ou realizações mecânicas, como as obras do ser humano. E vemos ao nosso redor ainda muito outros acontecimentos, como resultado do efeito duma substância sobre outra, sem reconhecermos um nexo perceptível entre causa e efeito. Só o ser humano culto,experimentado na comparação e na abstração, é capaz de formar para si alguma idéia supersensorial suficiente para manter distante, nos seus pensamentos, tudo que é material ou mecânico, na concepção de tais conceitos; ele chama tais efeitos de dinâmicos, virtuais, i.é, efeitos que resultam da energia e ação puras, específicas, absolutas, duma substância sobre a outra. Assim , por exemplo, a ação dinâmica das influências morbíficas no ser humano são, bem como a força dinâmica dos medicamentos no princípio vital, para a restauração da saúde, não é outra coisa senão infecção, e de nenhum modo material, de nenhum modo mecânica, como o é a força dum imã que atrai um pedaço de ferro ou aço. Vê-se que o pedaço de ferro é atraído por um pólo do imã, porém como isso acontece, não se vê. Essa força invisível do imã não precisa, para atrair o ferro, de nenhum meio auxiliar mecânico (material), de nenhum gancho ou alavanca; ele atrai e age sobre o pedaço de ferro ou agulha de aço por meio de pura força própria, imaterial, invisível, de natureza espiritual, i. é, dinamicamente, e comunica da mesma maneira invisível, dinâmica, à agulha de aço a força magnética; a agulha de aço torna-se magnética já à distância, sem ser tocada pelo imã, e magnetiza outras agulhas de aço com a mesma propriedade magnética (dinamicamente) que recebeu antes do imã, precisamente como uma criança com varíola ou sarampo comunica , à criança vizinha, sã, não tocada por ela, a varíola ou o sarampo de maneira invisível (dinamicamente), i.é, infecta-a a distância sem que qualquer material da criança infectante passe ou possa passar àquela outra tampouco como qualquer material do pólo do imã pudesse chegar à agulha de aço. Uma influência puramente espiritual, específica, comunicou à criança a varíola ou o sarampo, da mesma maneira como o imã comunicou a propriedade magnética à agulha vizinha.

E de modo semelhante, deve-se considerar o efeito dos medicamentos no ser humano vivo. As substâncias naturais que se nos apresentam como medicamentos, são apenas medicamentos desde que possuam a força (cada um uma própria específica) de alterar o estado do ser humano pela influência de natureza espiritual, dinâmica (por meio da fibra sensível viva) sobre o princípio vital de natureza espiritual que controla a vida.

A propriedade medicinal daquelas substâncias naturais a que chamamos, em sentido mais estreito, de medicamentos, refere-se apenas à sua força de causar alterações no estado da vida animal; só a esse princípio vital de natureza espiritual estende-se a sua influência (dinâmica) de natureza espiritual alteradora de estado; assim como a vizinhança dum pólo magnético pode comunicar ao aço só força magnética (e isso por uma espécie de contágio), mas não outras propriedades (por exemplo, mais dureza ou dutilidade etc.).

E assim cada substância medicinal especial altera, por uma espécie de infecção, o estado do ser humano de maneira peculiar, exclusivamente sua, e não de maneira peculiar a outro medicamento, tão certo quanto a proximidade duma criança com varíola comunicará a uma criança sã só a varíola, e não o sarampo.

“Essa ação dos medicamentos sobre o nosso estado ocorre dinamicamente, como por infecção, completamente sem comunicação de partes materiais da substância medicamentosa…”

Seu vitalismo era absoluto. Não admitia materialismo. No parágrafo 13 Hahnemann critica veementemente aqueles que vêm na doença algo material e a mais do que uma alteração da força vital, considerando que ela seja “algo separado do todo vivo…, e oculta em seu interior,… é um absurdo (Materia pecans!) somente imaginado por mentes materialistas…” que tornaram a medicina uma “arte verdadeiramente nociva.”

No parágrafo 16, e em outros parágrafos do Organon, Hahnemann alerta para o fato de que a força vital imaterial quando alterada, não pode por si só, salvo em alguns casos agudos, fazer voltar a saúde ao organismo. Faz-se mister a intervenção do remédio com seus poderes alterativos imateriais que, agindo sobre esta força vital perturbada, pode restabelecer “…A saúde e a harmonia vital…”

Samuel Hahnemann foi um vitalista holista no sentido lato do termo. Por mais que insistam teimosamente os mecanicistas e organicistas de todos os tempos, Hahnemann teve uma visão muito lúcida sobre em que consistia o fenômeno da vida; ele o expressa sinteticamente no parágrafo 15 do Organon: “… O organismo é na verdade, o instrumento material da vida, não sendo, porém, concebível sem a animação que lhe é dada pelo dinamismo instintivamente perceptor e regularizador, tanto quanto a força vital não é concebível sem o organismo; conseqüentemente, os dois juntos constituem uma unidade; embora em pensamento, nossas mentes separem essa unidade em dois conceitos distintos para mais fácil compreensão.”

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